A Suprema Corte da Índia tomou uma decisão que está gerando debates acalorados em todo o mundo: a captura imediata de todos os cães de rua em Nova Déli. A medida, anunciada em 11 de agosto, visa combater o alarmante número de mortes por raiva no país.

O Que Levou a Índia a Tomar Essa Decisão Drástica
A Índia registra oficialmente cerca de 5.700 mortes por raiva humana por ano, mas a Organização Mundial da Saúde (OMS) estima que o número real pode chegar a 20 mil mortes anuais, pela diferença de números observamos a possível subnotificação de casos.
Em Nova Déli especificamente, a situação se tornou crítica nos últimos anos. Entre janeiro e junho de 2024, a cidade contabilizou 35.198 incidentes de mordida e 49 casos confirmados de raiva.
O juiz JB Pardiwala, responsável pela decisão, argumentou que “crianças devem se sentir seguras ao brincar e andar de bicicleta, e idosos devem caminhar sem medo”. Esse ideal de segurança pública motivou a determinação de que todas as autoridades municipais recolham os cães de rua, castrados ou não, realizem esterilização e vacinação, mantendo-os em abrigos que devem ser construídos em apenas oito semanas.
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A Realidade Alarmante dos Cães de Rua em Nova Déli
Para entender a operação ordenada pela Suprema Corte, é essencial conhecer os números da população canina de rua na capital indiana. O último censo oficial, realizado em 2012, apontou 60 mil cães em situação de rua em Nova Déli. Contudo, estimativas atuais sugerem que a população ultrapasse 1 milhão de animais, evidenciando um crescimento exponencial que sobrecarrega os recursos municipais.
Esta explosão populacional de cães de rua não aconteceu do nada, fatores como disponibilidade de alimento através de restos urbanos, falta de programas efetivos de castração e a tradição cultural indiana de alimentar cães comunitários contribuíram para este cenário. Muitos moradores desenvolveram vínculos afetivos com os animais, criando uma rede informal de cuidados que, embora bem-intencionada, não resolve questões estruturais como controle reprodutivo e vacinação.

A decisão judicial confronta diretamente essa realidade social. Milhares de pessoas que diariamente alimentam e cuidam de cães de rua agora enfrentam a perspectiva de ver seus “protegidos” removidos compulsoriamente. Como protestou Nishima Bhagat durante uma vigília à luz de velas: “Eles não podem falar por si. Não podemos arrancá-los do lugar onde vivem para jogá-los em canis”.
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Por Que ONGs e Protetores Protestam Contra a Medida
A reação das organizações de proteção animal foi imediata e contundente. ONGs classificaram a decisão como “impraticável e desumana”, levantando questões fundamentais sobre o bem-estar dos animais e a viabilidade logística da operação. Mini Aravindan, da PETA Índia, destacou que “é inviável construir e manter abrigos para centenas de milhares de cães, e o custo seria gigantesco”.
As críticas vão além da questão financeira. Especialistas em comportamento animal alertam que a remoção em massa de cães de rua pode causar estresse extremo, problemas comportamentais e até mesmo mortes por choque ou doenças relacionadas ao confinamento. Cães que viveram toda a vida em liberdade podem desenvolver estereotipias, depressão e agressividade quando confinados em espaços reduzidos, mesmo que bem equipados.
Bharati Ramachandran, da Federação das Organizações de Proteção Animal da Índia, propõe uma abordagem alternativa baseada em evidências científicas. Ela defende campanhas amplas de esterilização, vacinação e educação pública como solução mais eficaz e ética. Esta perspectiva argumenta que a remoção dos cães criará um vácuo territorial que será rapidamente ocupado por novos animais, perpetuando o problema em vez de resolvê-lo.

Alternativas Mais Eficazes Para o Controle Populacional
A experiência internacional demonstra que existem métodos comprovadamente mais eficazes para gerenciar populações de cães de rua sem recorrer à remoção em massa. O modelo “Capturar-Castrar-Vacinar-Soltar” (CCVS) tem mostrado resultados positivos em diversos países, controlando tanto a reprodução quanto a transmissão de doenças.
Esta abordagem funciona através de princípios biológicos simples mas eficazes. Cães castrados e vacinados ocupam territórios sem se reproduzir, impedindo que novos animais se estabeleçam na área. Simultaneamente, a vacinação em massa cria uma barreira imunológica que reduz drasticamente a circulação do vírus da raiva, protegendo tanto animais quanto humanos.
Componentes de um Programa Efetivo
Um programa sustentável de controle populacional deve incluir múltiplas estratégias integradas:
- Castração em massa: Meta de esterilizar pelo menos 70% da população para impactar significativamente a reprodução
- Vacinação antirrábica: Cobertura vacinal ampla para criar imunidade de rebanho
- Educação pública: Ensinar a população sobre prevenção de mordidas e cuidados básicos
- Regulamentação da alimentação: Orientar sobre locais e formas adequadas de alimentar cães comunitários
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