Biarritz da Boa Barba

Perder um cãozinho que esteve durante muitos anos da sua vida ao lado, é bem difícil. A dor é grande e parte de nós vai embora com eles. E quando soubemos que nosso cãozinho está nos últimos dias de vida e você está do outro lado do oceano? Pois foi isso que eu vivenciei nas últimas 2 semanas e não foi nada fácil. Hoje quero compartilhar com vocês a história dela: Biarritz da Boa Barba, ou simplesmente Biá.
A infância da Biá
Biarritz da Boa Barba era uma shnauzer média cor sal e pimenta e com olhos azuis marinho. Era uma lady de família alemã e filha de campeões mundiais. Nasceu e foi escolhida pela minha tia Maria Helena e pela minha prima Fernanda no ano 2000. Cheguei para morar em Porto Alegre com minha tia e Biá aproximadamente 1 ano depois, em 2001, para estudar para o vestibular, mas como visitávamos a tia Nena com frequência, eu acompanhei a Bia pequeninha, desengonçada e fazendo cocô pela casa até aprender o local certo para suas necessidades.
A adolescência da Biá
Biá acompanhou alegrias, dores, amores, despedidas e viagens da família. Ela acompanhou meu tempo de estudo, comemorou comigo quando passei no vestibular, saia de roupa de grêmio para comemorar as vitórias do meu time, compartilhava comigo os encontros no Parcão e recebia as visitas da família. E resolvemos “cruzar” a Biá. Mas ela não queria fazer isso longe de casa e após 3 tentativas ela acabou “cruzando” lá em casa mesmo. Foi engraçado. E ela teve filhote. Não 1, ela teve 11 filhotes. Enquanto minha tia passava a noite vendo todo o processo, eu dormi. Mas ajudei na primeira papá da família, me apeguei a cada cãozinho e tive que me despedir de cada um deles, pouco a pouco. Cada um tem um novo dono.Biá já pulou no lago para pegar pato e minha tia teve que sair correndo atrás dela. Ela largava seu osso gigante no pé das visitas que não gostava. Biá mordia a bunda dos meus amigos, nas comemorações dos GOLS durante os jogos de futebol. Ela fazia cada coisa que todos ríamos de tudo. E tem histórias com toda a nossa família, todas a amavam.
A vida adulta da Biá
Quando minha tia teve que ser transferida para Brasília, Biá ficou em casa comigo sendo cuidada pela nossa amada cozinheira e cuidadora do lar Cesária e presenciou uma das maiores tragédias da nossa família: um assalto na nossa casa com morte. Biá ficou trancada no quartinho e quando a encontrei depois estava bem desesperada. Nos acalmamos juntas.
E depois disso, em 2005, nós decidimos arrumar as malas. Eu, Biá e os dois gatinhos Ibis e Marlon. E fomos morar com minha tia Milena e minha prima Márcia em Brasília. Todos juntos por 6 meses. Foi um momento maravilhoso nas nossas vidas cheias de lembranças boas. Nos apelidamos de “familia pã” pela semelhança da Bia com o burro do Shrek (especialmente na cena em que eles estão mudando de cidade e ele emite um som no banco de trás do carro -Pa, já chegamos? Já chegamos?). Biá aproveitava os domingos na casa da amiga Léo no Lago Sul para pular na piscina com seu amigo Baro, um labrador lindo e sorridente. Era o seu namorado. Ela chegava em casa com cigarras na boca tão comuns em Brasília no verão. Curtimos muito.
E voltamos para Porto Alegre. E mudamos de casa. Biá ajudou a arrumar as malas. E a fazer as minhas, quando decidi em 2010 ter uma experiência de vida no exterior. A despedida nunca é fácil e sempre senti falta dela encima da minha cama.
Os últimos 5 anos
Acompanhei os últimos 5 anos da Biá da janelinha. Isso é o que acontece com a maioria das pessoas que decide fazer esta escolha de morar fora. Tudo acontece e você participa pela metade. Ou pelo dobro porque tenta de todos os modos estar presente. Ela foi envelhecendo aos poucos, mas sempre forte e linda. Acompanhou o sofrimento da minha tia Milena com a perda dos dois gatinhos no ano passado e presenciou a chegada das malucas siamesas na casa – Pina e Pagu, ainda este ano. Brincou com as novas bebês da família – Valentina e Caliane – e curtiu sua última longa viagem de férias na praia da Pinheira, no carro da tia Ana Maria, em janeiro deste ano, quietinha curtindo o vento no rosto como ela tanto gostava. Nos tantos momentos de ausência da minha tia Milena, que viaja muito a trabalho, Flávia cuidava dela com todo o amor e carinho. Ela chamava Biá de “minha linda”. E Márcia chamada de “minha goda”. E os apelidos são muitos. Durante estes 5 anos, voltei ao Brasil apenas uma vez, em janeiro do ano passado, mas eu não tinha idéia de que seria a despedida. Da Biá e da Luna, minha outra amada cachorrinha que partiu em março do ano passado.
As duas últimas semanas
Biá foi piorando nas últimas 2 semanas e acompanhar tudo desde Londres não foi tarefa fácil. O que fazer quando isso acontece e você não pode se solidarizar e estar perto da sua família pra dar um apoio? Ou beijar seu caõzinho e dizer o quanto você ama ele? A família unida postava de minuto em minuto no grupo do Whats app todos os últimos acontecimentos. Muitos foram para a casa da tia Milena para se despedir dela. Viajaram desde Caxias a Porto Alegre para o último carinho. Ela latiu para alguns, e sorriu para outros. E eu acompanhando as fotos pelo celular dos últimos beijos, através do Skype venda ela fazer xixi lentamente, e a foto da última caminhada, todos postando fotos antigas nas mais diversas situações, e contando histórias de vida com a Biá.
Mensagens de incentivo e solidariedade para a tia Nena, que tinha Biá como filha e companheira. Como ela disse “amanhã sairei para dar a caminhada de Sabádo mas Biá me guiava no caminho. Não sei andar sozinha”. Quando Bia foi tomar soro, recebi as fotos da Milena, Márcia e da veterinária Marília beijando Biá na caminha. Todos muito tristes, óbvio. Deram para a Biá mais alguns dias. E eu daqui, chorando e acompanhando como eu podia. Na semana passada, acordei em Londres com uma mensagem da minha tia no celular “passei a noite acordada com Biá chorando de dor. Nos abraçamos toda a noite e eu pedia que ela fosse embora”. Sim. Acompanhei a ida ao veterinário, os últimos momentos, a minha tia e minha prima voltando para casa sem ela, a Nena chegando em casa e a Biá não estava lá na porta para receber-la como de costume. Vivi tudo com ela.
E desde então, toda família se uniu em torno de um único tema. A Biá. Escrevo esse texto em homenagem a minha tia Milena que terá que conviver sem ela e reaprender a construir a sua rotina depois de 15 anos. Escrevo pela minha linda família que postou mensagens maravilhosas nas redes sociais, no celular, e nas ligações que recebi. Para demonstrar que, mesmo distante, não deixei de amar-la. Por solidariedade a todos os que perderam seus cãozinhos no Brasil enquanto viviam no exterior. E principalmente escrevo para a Biá, que aonde quer que esteja saberá que sua história chegou a tantas pessoas. Obrigada cãozinho lindo, que nos deu tantas alegrias.

Postado por
Siga em:
Compartilhe
Assine nosso Newsletter
Assine nossa newsletter e receba em seu e-mail nossa seleção de conteúdo com dicas e curiosidades sobre cães.

Veja também!

Cupins de chuva podem intoxicar cães: tragédia acende alerta para tutores. Veja esse caso!
Uma cadela morreu após ingerir cupins de chuva, conhecidos como aleluias ou siriris, durante uma revoada ocorrida no período chuvoso,...
Pesquisa identifica novos marcadores prognósticos para mastocitomas em cães
Uma pesquisa britânica identificou novos marcadores prognósticos para tumores de mastócitos em cães, destacando a mutação do gene c-kit no...
Labrador chama a atenção do tutor por câmera de monitoramento e viraliza. Veja o vídeo
O labrador Beau viralizou ao descobrir que, ao latir para a câmera de monitoramento enquanto fica sozinho em casa, aciona...
Câmara de Juiz de Fora aprova regras para criação e manutenção de cães. Veja o que mudou!
A Câmara Municipal de Juiz de Fora aprovou um projeto de lei que estabelece regras para a posse responsável de...
Img de rastreio

Localize algo no site!