Sabe o que não entendo? Minha tutora diz que sou o cão mais meigo e doce que conhece e me batizou de Pepper. Vai entender…
Bom, melhor explicar do início.
Não sei bem durante quantos meses ou anos estive nas ruas. Sei que segui outros cães e acabei numa construção. Uns me alimentavam e davam carinho. Até tentavam curar a ferida no meu olho – mas sempre em vão. Uma moça muito querida e simpática chamada Bruna foi quem pediu ajuda para mim.
Sei que de repente estava num lugar onde cuidaram de mim. Meu olho estava muito machucado. E enquanto me examinavam perceberam que eu estava com a pata traseira machucada, algo muito antigo, mas que poderiam consertar. Fiquei uma semana internado e estava muito feliz, pois estava sem machucados e com um lar.
Mas, de repente, aparece um casal para me buscar. Não quis ir. Fiquei com muito medo de voltar para as ruas novamente. Mesmo assim eles conseguiram me tirar de lá.
Estava com muito medo, mas fiquei de cabeça baixa e bem quietinho – talvez eles me deixariam de lado e não me maltratariam.
Cheguei num lugar novo e aconchegante. Tinha cama, comida e água. Até um ser humano em miniatura – acho que chamam de criança.
De repente começaram a me chamar de Pepper. O que significava isso? Então descobri que seria meu nome. Não lembro se algum dia já tive um.
O mais difícil foi que lá já tinha outro cão e ela não pareceu gostar de mim.
Mas sempre fui eu mesmo: quietinho, não reclamava, muito menos latia – sei que os humanos não gostam disso.
As vezes ainda sentia medo e me escondia. E os dias foram passando e eles não me mandaram embora, muito menos me maltrataram. Mesmo eu estragando algumas coisinhas de vez em quando.
Até conquistei o coração da Chili, essa sim faz jus ao nome. Fica se achando porque tem um tal de pedigree. E daí? Nem tenho essas coisas e sou bem mais bonzinho. Chili é minha concorrente de carinho. Depois do Lucca é claro – aquele ser humano em miniatura.
Tentei lembrar a quanto tempo estou aqui e percebi que se passaram três meses. Acho que agora as palavras que minha tutora me disse no primeiro dia fazem sentido: “Chega de dor, solidão e fome, agora você tem um lar e uma família”.