Novo tratamento para leishmaniose é 170 vezes mais potente. Veja a descoberta da Fiozruz

A leishmaniose é uma doença tropical endêmica no Brasil, ou seja, ocorre de forma permanente em diversas regiões. O mosquito transmissor, conhecido como flebotomíneo (ou popularmente mosquito-palha, birigui ou cangalhinha), está presente em variados ambientes: desde áreas rurais até grandes cidades como o Rio de Janeiro. Isso significa que o risco de transmissão pode existir em diferentes contextos urbanos.

Phlebotomus pappatasi bloodmeal begin 768x516 1
Mosquito palha ( Phlebotomus pappatasi ) Imagem: Frank Collins

Leia também: Vacina contra leishmaniose canina é suspensa no Brasil

Distribuição no Brasil

A leishmaniose apresenta duas formas principais:

  • Leishmaniose cutânea (ou tegumentar)
    O país registra em média cerca de 26.965 casos por ano (15,7 casos por 100 mil habitantes). A doença está presente de norte a sul, com maior incidência nas regiões Norte, Centro-Oeste e Nordeste. Exemplos marcantes são os estados do Maranhão (221,59 casos/100 mil hab.) e Bahia (134,96/100 mil hab.)

  • Leishmaniose visceral
    Essa forma mais grave representa mais de 90% dos casos nas Américas, com o Brasil concentrando a maioria. A média anual é de cerca de 3.418 casos (1,8 por 100 mil habitantes). As regiões Norte e Nordeste têm os maiores números de hospitalizações e letalidade.

Como a leishmaniose é tratada atualmente

O tratamento da leishmaniose ainda apresenta muitos desafios. Os medicamentos existentes foram desenvolvidos há décadas, têm efeitos colaterais importantes e, em alguns casos, o parasita já se tornou resistente.

Antimoniais pentavalentes

São usados há mais de 70 anos como primeira escolha no Brasil. Precisam ser aplicados por injeções diárias, geralmente por 20 a 30 dias. Os efeitos colaterais podem incluir problemas no coração, fígado, rins e pâncreas, o que exige acompanhamento médico rigoroso.

Anfotericina B

É um antifúngico que também age contra o protozoário Leishmania. Existe na forma convencional, que pode causar toxicidade nos rins, e na versão lipossomal, conhecida como AmBisome, que é mais segura, mas também mais cara.

Leia: Leishmaniose canina: detalhes sobre uma doença perigosa

Miltefosina

É o único tratamento oral disponível, ou seja, em comprimidos. Apesar da praticidade, pode provocar efeitos gastrointestinais e não deve ser usada durante a gravidez, pois pode afetar o bebê. Além disso, não funciona igualmente em todas as regiões e contra todas as espécies de parasita.

Outras opções

Dependendo do caso, também podem ser usados medicamentos como a pentamidina ou a paromomicina, além de terapias locais como crioterapia e termoterapia, indicadas para lesões cutâneas pequenas.

pexels edurawpro 33277356 768x512 1
Cão rodeado de mosquitos. Imagem: pexels

A descoberta da Fiocruz: a molécula SbVT4MPP

Pesquisadores da Fiocruz Minas, em parceria com universidades brasileiras e estrangeiras, desenvolveram um novo composto chamado SbVT4MPP.

Esse nome complexo significa que a molécula é formada pela união de um medicamento já conhecido, o antimônio pentavalente, com uma estrutura chamada porfirina. Essa combinação deu origem a uma substância com uma ação muito mais potente contra o protozoário Leishmania.

Nos testes em laboratório, o SbVT4MPP mostrou-se até 170 vezes mais potente do que os medicamentos usados atualmente. Além disso, conseguiu eliminar parasitas que já eram resistentes ao tratamento convencional, o que é um grande avanço diante de um dos principais problemas atuais: a resistência medicamentosa.

Como o novo tratamento funciona

COLEIRA 1
Cão com coleira repelente. Imagem: reprodução

O SbVT4MPP age de uma forma diferente dos remédios tradicionais. Ele interfere na produção de uma substância chamada ergosterol, que faz parte da membrana do parasita. Sem essa proteção, o protozoário fica vulnerável e acaba morrendo.

Um ponto positivo é que o alvo dessa ação, a enzima responsável pela produção do ergosterol, não existe em células humanas. Isso significa que o medicamento tem mais chances de ser seletivo contra o parasita e causar menos efeitos colaterais nas pessoas.

Nos testes com camundongos infectados pela espécie Leishmania donovani, que causa a leishmaniose visceral, o tratamento reduziu em 96% a carga parasitária no fígado dos animais.

O que esperar daqui para frente

Apesar dos resultados animadores, o SbVT4MPP ainda está em fase pré-clínica, ou seja, foi testado apenas em células e em animais. Para que chegue até os pacientes, ainda será necessário passar por várias etapas, incluindo estudos clínicos em humanos.

Segundo os pesquisadores, esse processo exige investimentos financeiros e tempo, já que o desenvolvimento de novos medicamentos enfrenta muitas barreiras regulatórias. Mesmo assim, a descoberta representa uma esperança real para o futuro do tratamento da leishmaniose, que há décadas não recebe opções inovadoras.

Postado por
Siga em:
Compartilhe
Assine nosso Newsletter
Assine nossa newsletter e receba em seu e-mail nossa seleção de conteúdo com dicas e curiosidades sobre cães.

Veja também!

Cupins de chuva podem intoxicar cães: tragédia acende alerta para tutores. Veja esse caso!
Uma cadela morreu após ingerir cupins de chuva, conhecidos como aleluias ou siriris, durante uma revoada ocorrida no período chuvoso,...
Pesquisa identifica novos marcadores prognósticos para mastocitomas em cães
Uma pesquisa britânica identificou novos marcadores prognósticos para tumores de mastócitos em cães, destacando a mutação do gene c-kit no...
Labrador chama a atenção do tutor por câmera de monitoramento e viraliza. Veja o vídeo
O labrador Beau viralizou ao descobrir que, ao latir para a câmera de monitoramento enquanto fica sozinho em casa, aciona...
Câmara de Juiz de Fora aprova regras para criação e manutenção de cães. Veja o que mudou!
A Câmara Municipal de Juiz de Fora aprovou um projeto de lei que estabelece regras para a posse responsável de...
Img de rastreio

Localize algo no site!