A leishmaniose é uma doença tropical endêmica no Brasil, ou seja, ocorre de forma permanente em diversas regiões. O mosquito transmissor, conhecido como flebotomíneo (ou popularmente mosquito-palha, birigui ou cangalhinha), está presente em variados ambientes: desde áreas rurais até grandes cidades como o Rio de Janeiro. Isso significa que o risco de transmissão pode existir em diferentes contextos urbanos.

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Distribuição no Brasil
A leishmaniose apresenta duas formas principais:
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Leishmaniose cutânea (ou tegumentar)
O país registra em média cerca de 26.965 casos por ano (15,7 casos por 100 mil habitantes). A doença está presente de norte a sul, com maior incidência nas regiões Norte, Centro-Oeste e Nordeste. Exemplos marcantes são os estados do Maranhão (221,59 casos/100 mil hab.) e Bahia (134,96/100 mil hab.) -
Leishmaniose visceral
Essa forma mais grave representa mais de 90% dos casos nas Américas, com o Brasil concentrando a maioria. A média anual é de cerca de 3.418 casos (1,8 por 100 mil habitantes). As regiões Norte e Nordeste têm os maiores números de hospitalizações e letalidade.
Como a leishmaniose é tratada atualmente
O tratamento da leishmaniose ainda apresenta muitos desafios. Os medicamentos existentes foram desenvolvidos há décadas, têm efeitos colaterais importantes e, em alguns casos, o parasita já se tornou resistente.
Antimoniais pentavalentes
São usados há mais de 70 anos como primeira escolha no Brasil. Precisam ser aplicados por injeções diárias, geralmente por 20 a 30 dias. Os efeitos colaterais podem incluir problemas no coração, fígado, rins e pâncreas, o que exige acompanhamento médico rigoroso.
Anfotericina B
É um antifúngico que também age contra o protozoário Leishmania. Existe na forma convencional, que pode causar toxicidade nos rins, e na versão lipossomal, conhecida como AmBisome, que é mais segura, mas também mais cara.
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Miltefosina
É o único tratamento oral disponível, ou seja, em comprimidos. Apesar da praticidade, pode provocar efeitos gastrointestinais e não deve ser usada durante a gravidez, pois pode afetar o bebê. Além disso, não funciona igualmente em todas as regiões e contra todas as espécies de parasita.
Outras opções
Dependendo do caso, também podem ser usados medicamentos como a pentamidina ou a paromomicina, além de terapias locais como crioterapia e termoterapia, indicadas para lesões cutâneas pequenas.

A descoberta da Fiocruz: a molécula SbVT4MPP
Pesquisadores da Fiocruz Minas, em parceria com universidades brasileiras e estrangeiras, desenvolveram um novo composto chamado SbVT4MPP.
Esse nome complexo significa que a molécula é formada pela união de um medicamento já conhecido, o antimônio pentavalente, com uma estrutura chamada porfirina. Essa combinação deu origem a uma substância com uma ação muito mais potente contra o protozoário Leishmania.
Nos testes em laboratório, o SbVT4MPP mostrou-se até 170 vezes mais potente do que os medicamentos usados atualmente. Além disso, conseguiu eliminar parasitas que já eram resistentes ao tratamento convencional, o que é um grande avanço diante de um dos principais problemas atuais: a resistência medicamentosa.
Como o novo tratamento funciona

O SbVT4MPP age de uma forma diferente dos remédios tradicionais. Ele interfere na produção de uma substância chamada ergosterol, que faz parte da membrana do parasita. Sem essa proteção, o protozoário fica vulnerável e acaba morrendo.
Um ponto positivo é que o alvo dessa ação, a enzima responsável pela produção do ergosterol, não existe em células humanas. Isso significa que o medicamento tem mais chances de ser seletivo contra o parasita e causar menos efeitos colaterais nas pessoas.
Nos testes com camundongos infectados pela espécie Leishmania donovani, que causa a leishmaniose visceral, o tratamento reduziu em 96% a carga parasitária no fígado dos animais.
O que esperar daqui para frente
Apesar dos resultados animadores, o SbVT4MPP ainda está em fase pré-clínica, ou seja, foi testado apenas em células e em animais. Para que chegue até os pacientes, ainda será necessário passar por várias etapas, incluindo estudos clínicos em humanos.
Segundo os pesquisadores, esse processo exige investimentos financeiros e tempo, já que o desenvolvimento de novos medicamentos enfrenta muitas barreiras regulatórias. Mesmo assim, a descoberta representa uma esperança real para o futuro do tratamento da leishmaniose, que há décadas não recebe opções inovadoras.