Gatos pretos e a superstição da sexta‑feira 13: origem e impactos.

Associações negativas entre gatos pretos e azar são antigas e alimentadas por superstições. Desde a Idade Média, esses felinos foram vinculados à bruxaria e ao ocultismo, e até o papa Inocêncio VIII promoveu sua perseguição sob acusações de feitiçaria no século XV. A superstição se intensificou em datas como a sexta‑feira 13, considerada de má sorte por causa do simbolismo religioso do número 13 (os treze apóstolos na Última Ceia) e da crucificação de Jesus em uma sexta‑feira 

Hoje, apesar de parecer antiquada, essa crença persiste e tem consequências reais. Gatos pretos são adotados com menos frequência e frequentemente sacrificados em abrigos pelo mundo. Além disso, cães de pelagem escura enfrentam a chamada “Síndrome do cachorro preto”, onde muitas pessoas os consideram mais ameaçadores e menos exigíveis para adoção.

Este artigo apresenta, vamos ver as origens históricas dessas superstições, o impacto prático sobre gatos e cães de pelo preto e orientações claras para proteger esses animais. A meta é conscientizar e combater o preconceito, especialmente em datas como sexta‑feira 13 e Halloween.

pessoa idosa gastando tempo com seus animais de estimacao
Gato preto com a família. Imagem: Freepik

Origem do mito de azar

O mito do azar associado aos gatos pretos é uma construção cultural complexa, com raízes profundas na história da Europa medieval, mas que contrasta fortemente com crenças mais antigas. Para entender sua origem, é preciso viajar no tempo e analisar as mudanças de percepção sobre esses felinos em diferentes sociedades e períodos.

1. A Idade de ouro dos gatos: antigo egito e além

Antes da má fama, os gatos, inclusive os pretos, eram venerados. No Antigo Egito, eles eram considerados criaturas sagradas, associadas à deusa Bastet, protetora do lar, da fertilidade e das mulheres. Bastet era frequentemente retratada com a cabeça de uma gata preta. Os gatos eram tratados como realeza, mumificados após a morte e maltratá-los era um crime grave, punível com a morte. Ter um gato preto em casa era visto como um sinal de boa sorte e proteção divina.

Outras culturas também viam os gatos de forma positiva. No Japão, gatos pretos são considerados símbolos de boa sorte, especialmente para mulheres solteiras, afastando pretendentes indesejados e atraindo relacionamentos sinceros. No Reino Unido, em algumas regiões, um gato preto que entrava em uma casa era sinal de sorte, e marinheiros britânicos os levavam em seus navios para garantir viagens seguras e prósperas.

2. A inversão do símbolo: a idade média europeia e a ascensão do cristianismo

A transição da reverência para a superstição e o medo dos gatos pretos ocorreu majoritariamente na Idade Média europeia, em um período de grande fervor religioso e perseguição a práticas consideradas pagãs.

  • Demonização de crenças pagãs: Com a ascensão do Cristianismo, muitas divindades e símbolos de religiões pagãs anteriores foram demonizados. Como os gatos, especialmente os pretos, eram altamente considerados em sistemas de crenças pagãos, como o egípcio e algumas tradições celtas, a Igreja medieval os condenou. Eles passaram a ser associados a demônios e às trevas, como parte de uma estratégia para deslegitimar antigas fés e rituais.

  • Associação com a bruxaria: O ponto crucial para a má fama do gato preto foi a associação com a bruxaria. Na Europa medieval, e intensificado durante a Inquisição, espalhou-se a crença de que bruxas podiam se transformar em gatos pretos para se disfarçar, escapar da captura e praticar feitiços malignos sob a cobertura da noite. O diabo, por sua vez, também seria capaz de se manifestar através desses animais. A imagem popular de uma bruxa com seu gato preto ao lado se tornou um ícone dessa época.

  • Bulas Papais e perseguição: O Papa Gregório IX, em 1233, emitiu a bula papal “Vox in Rama”, que associava explicitamente os gatos pretos à heresia e ao satanismo. Isso deu um aval religioso para a perseguição e o massacre em massa desses animais. Milhares de gatos foram mortos de forma brutal, muitas vezes junto com as mulheres acusadas de bruxaria (que eram em sua maioria mulheres).

Leia também: O Papa pode ter animais de estimação? Saiba aqui! – Portal do Dog

3. O impacto da Peste Negra: uma consequência involuntária

A perseguição aos gatos pretos pode ter tido uma consequência inesperada e devastadora: a Peste Negra (ou Peste Bubônica) que assolou a Europa no século XIV. Ao eliminar um grande número de gatos, que eram os principais predadores de ratos, as cidades ficaram com uma população descontrolada de roedores. Os ratos, por sua vez, eram os principais vetores da doença, carregando as pulgas infectadas que transmitiam a peste aos humanos.

Embora não seja a única causa da Peste Negra, a escassez de gatos muitos acreditam que contribuiu para a rápida e fatal propagação da doença, intensificando o sofrimento da população europeia. Ironia do destino, o animal demonizado era, na verdade, um aliado crucial no controle de pragas.

Temos um artigo especial sobre Zoonoses, leia aqui!

4. A persistência do mito e o cenário atual

Apesar da evolução do pensamento e da ciência, a superstição do gato preto cruzando o caminho como sinal de azar persistiu em muitas culturas ocidentais por séculos, sendo reforçada por lendas e contos populares. A associação com a “sexta-feira 13” também se enraizou nesse imaginário.

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Gato preto em cima de uma árvore. Imagem: Freepik

Consequências atuais

Atualmente todo esse peso histórico dos mitos em relação aos gatos pretos reflete em gatos pretos que passam muito mais tempo em abrigos aguardando adoção, com uma taxa significativamente menor de novos lares em comparação com gatos de outras cores. No Brasil, eles representam cerca de 21% dos animais em ONGs à espera de uma família, e dados de abandono indicam que animais de pelagem preta são 27% dos resgatados.

Além da dificuldade de adoção, o estigma leva a um risco elevado de maus-tratos e abandono, especialmente em datas como o Halloween ou sextas-feiras 13, quando esses animais são, infelizmente, alvo de superstições e rituais e são adotados com má fé. Organizações de proteção animal emitem alertas e chegam a suspender adoções de gatos pretos nesses períodos para protegê-los. .

Como proteger gatos e cães pretos

  1. Evitar adoções em datas supersticiosas
    Não adotar ou promover adoções de animais pretos na sexta‑feira 13 ou Halloween ajuda a reduzir o risco de envolvimento em rituais.

  2. Profissionalizar fotografias para adoção
    Imagens claras e bem iluminadas aumentam a visibilidade e destacam o charme dos pets pretos.

  3. Educar sobre mitos e fatos
    Mostrar que pelagem não define comportamento ajuda a descontruir preconceitos. Divulgar que gatos pretos são companheiros, bons caçadores de roedores e até mais resistentes a certas doenças.

  4. Apoiar campanhas de conscientização
    Datas como o Dia do Gato Preto (27 de outubro) são oportunidades para destacar qualidades e aumentar adoções 

  5. Evitar deixar animais pretos soltos em datas de risco
    Atenção redobrada caso você tenha um gatinho preto, não deixe ele com acesso a rua!

  6. Apoiar ONGs e denúncias
    Apoiar abrigos que adotam estratégias como bandanas coloridas e canis iluminados faz diferença. E denuncie ser ver algum caso de maus-tratos 

Saiba como denunciar maus-tratos: Abril Laranja: Mês dedicado à prevenção da crueldade contra os …

 

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