Síndrome de marfan em gatos: o que é e como identificar?
Pesquisadores da Universidade de Cornell, no estado de Nova York (EUA), descreveram pela primeira vez, do ponto de vista clínico e molecular, a síndrome de Marfan em gatos domésticos. O estudo, publicado na revista Scientific Reports, analisou os irmãos Gary e Shaggy, que compartilham uma alteração no gene FBN1, o mesmo associado à doença hereditária que afeta o tecido conjuntivo em humanos.
A descoberta vai além de encontrar uma mutação parecida com a humana. Os felinos apresentavam várias manifestações consideradas típicas da síndrome, e os cientistas examinaram o que acontecia em seus tecidos. O trabalho oferece uma nova referência para veterinários que se deparem com casos semelhantes.

Quais sinais apareceram em Gary e Shaggy
Desde filhotes, os dois gatos chamavam atenção pelo comprimento das patas. Essa característica, sozinha, não permitia diagnosticar nenhuma doença. Com o tempo, surgiram sinais bem mais reveladores:
- Membros desproporcionalmente longos, notados ainda na fase de filhotes;
- Luxação bilateral do cristalino, o deslocamento da lente que fica dentro do olho, nos dois olhos;
- Dilatação da raiz da aorta, a principal artéria que leva o sangue do coração ao resto do corpo.
A combinação de alterações no esqueleto, nos olhos e no sistema cardiovascular lembrava de forma notável a síndrome de Marfan humana.
Há uma explicação biológica para a semelhança. O tecido conjuntivo dá sustentação e estrutura a várias partes do organismo, e a fibrilina-1 é uma das proteínas essenciais para o seu funcionamento. Ela está presente em vasos sanguíneos, ossos, ligamentos, pele e olhos.
O gene FBN1 contém as instruções para produzir essa proteína. Em pessoas, certas variantes dele causam desde membros e dedos muito longos até deslocamento do cristalino e alterações potencialmente graves na aorta. A equipe de Cornell quis saber se uma alteração no mesmo gene explicaria o conjunto de sintomas dos dois gatos.
O que a genética revelou
O sequenciamento do genoma trouxe uma das evidências mais importantes do estudo. Gary e Shaggy tinham uma variante de FBN1 localizada em uma região envolvida no processamento correto das instruções genéticas. Os dois carregavam duas cópias dessa variante, uma herdada de cada genitor.
Os pesquisadores compararam o achado com dados genéticos de um grupo de mais de 1.000 gatos e não encontraram a variante em nenhum deles. Isso reforçou a hipótese de que não se tratava de uma variação comum na espécie.
O sequenciamento de RNA com a tecnologia Oxford Nanopore mostrou que a mutação interferia no splicing, processo pelo qual as células preparam a informação genética antes de produzir uma proteína. Em cerca de 73% dos transcritos analisados, o éxon 22 do FBN1 era omitido. Essa perda afeta uma região importante para o dobramento e a estabilidade da fibrilina-1.
O defeito, porém, não anulava o gene por completo. Parte dos transcritos continuava sendo processada normalmente e podia gerar fibrilina funcional, e por isso os autores classificam a variante como hipomórfica: ela reduz a atividade normal, mas não a elimina.
Esse detalhe pode explicar um ponto aparentemente contraditório. Em humanos, uma única cópia alterada de FBN1 pode bastar para causar a síndrome, enquanto Gary e Shaggy tinham a variante nas duas cópias e ainda assim chegaram à idade adulta.
A aorta e o risco cardiovascular
A confirmação não veio só da genética. Os pesquisadores analisaram ao microscópio um fragmento da aorta ascendente de um dos gatos e encontraram alterações nas fibras elásticas.
As fibras estavam desorganizadas e fragmentadas, o que é compatível com o mau funcionamento da fibrilina-1 e com a degeneração da camada média da aorta, também observada em pacientes humanos com síndrome de Marfan.
O envolvimento cardiovascular pesa porque a aorta suporta pressão elevada ao conduzir o sangue do coração para o corpo. Em humanos com a síndrome, a dilatação progressiva pode aumentar o risco de aneurisma e de dissecção aórtica, uma complicação potencialmente fatal.
O que muda para tutores e veterinários
Os autores não afirmam que a síndrome de Marfan seja frequente entre os gatos, nem que tenha passado despercebida até agora. Gary e Shaggy representam a primeira caracterização fenotípica e molecular conhecida da doença em gatos domésticos. Isso é mais preciso do que dizer que foram os primeiros felinos a desenvolvê-la.
Na prática, conhecer a variante e suas manifestações pode ajudar veterinários a investigar futuros gatos que apresentem juntos membros muito longos, luxação do cristalino e dilatação da aorta. O estudo também fornece uma base para o desenvolvimento de testes genéticos específicos.
Patas longas, isoladamente, não indicam doença. Se o seu gato tiver alterações nos olhos ou suspeita de problema cardíaco, o caminho é levá-lo ao veterinário, o único profissional que pode examinar e diagnosticar.
O caso ainda mostra o valor da medicina comparada: doenças com mecanismos genéticos parecidos podem render informações úteis quando surgem espontaneamente em outras espécies.
Fonte: ExpertoAnimal
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