Pesquisadores da Universidade da Pensilvânia descobriram falhas significativas no sistema de vigilância da raiva em áreas pobres do Peru, mesmo sendo estes locais os que registram maior número de cães infectados. O estudo, publicado na revista The Lancet Regional Health, Americas, revela que a população com maior risco de exposição à doença é justamente a menos monitorada pelos sistemas tradicionais de vigilância.

Sistema de vigilância da raiva falha em áreas pobres, revela estudo
A raiva canina, erradicada do Peru há anos, ressurgiu recentemente no país, representando uma séria ameaça à saúde pública. Globalmente, a doença ainda mata cerca de 70 mil pessoas anualmente, com 99% dos casos humanos sendo transmitidos por cães infectados.
“As pessoas com maior risco também foram as menos ‘vistas’ pelo sistema de vigilância”, afirmou Ricardo Castillo, professor assistente de Epidemiologia e autor principal do estudo. Ele identificou que as barreiras estruturais e a desigualdade geográfica permitem que a doença persista em áreas específicas.
Em Arequipa, segunda maior cidade peruana, a pesquisa analisou como a falta de acesso a serviços de saúde em bairros desfavorecidos cria condições para a perpetuação do ciclo de transmissão da raiva, apesar dos esforços oficiais de controle.
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Diferenças entre vigilância ativa e passiva
O estudo comparou dois modelos de monitoramento da doença. O sistema tradicional “passivo” depende da população para relatar a presença de cães mortos às autoridades sanitárias, que então coletam e analisam amostras para detectar o vírus da raiva.
Castillo explica as limitações desse modelo em áreas pobres: “Essas regiões geralmente carecem de unidades de saúde próximas, e seus moradores frequentemente têm empregos informais, pouco tempo disponível e menor conhecimento sobre a raiva. Há também escassez de profissionais veterinários e de saúde pública nestas áreas”.
Para superar essas deficiências, a equipe implementou em 2021 um sistema de vigilância “ativa”, em parceria com a Universidade Cayetano Heredia. Este modelo incluiu patrulhas regulares em canais secos de Arequipa, locais onde frequentemente são encontrados corpos de cães. Os resultados mostraram que o sistema ativo foi responsável por aproximadamente um terço de todas as amostras coletadas em 2021 e 2022.
Resultados confirmam desigualdade no monitoramento
Para avaliar a eficácia dos dois sistemas, os pesquisadores analisaram dados de 2015 a 2022, rastreando a origem das amostras coletadas e relacionando-as com o status socioeconômico dos quarteirões, classificados de A (mais alto) a E (mais baixo).
Os números são reveladores: blocos de nível D e E representaram 67% e 58% do total de amostras coletadas via vigilância passiva em 2021 e 2022, respectivamente. Já com o sistema ativo, esses mesmos blocos contribuíram com 81% e 78% das amostras nos mesmos períodos.
“Encontramos diferenças marcantes entre risco e vigilância, claramente ligadas ao uso equitativo e acesso aos recursos de saúde pública”, destacou Castillo.
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Lições para o Brasil e o mundo
Embora conduzido em uma única cidade peruana, o estudo traz lições aplicáveis globalmente. A raiva continua sendo uma preocupação em várias regiões, incluindo Caribe, África e Ásia, e mesmo países com a doença controlada não estão imunes a potenciais surtos.
No contexto brasileiro, onde existem áreas com características socioeconômicas semelhantes às de Arequipa, os resultados sugerem a necessidade de avaliar a equidade dos sistemas de vigilância epidemiológica. As desigualdades sociais podem criar pontos cegos nos sistemas de monitoramento de doenças zoonóticas como a raiva.
Castillo resume a importância global do estudo: “O controle da raiva é um desafio de saúde compartilhado: se persistir em um local, continuará sendo um risco em todos os lugares, especialmente num cenário onde mudanças climáticas e migrações alteram a dinâmica das doenças infecciosas”.