Gato scottish fold tem problemas de saúde? Entenda

O gato scottish fold virou um fenômeno nas redes sociais por causa das orelhas pequenas dobradas para a frente, do rosto arredondado e dos olhos grandes. Por trás dessa aparência, porém, existe uma questão que veterinários e organizações de bem-estar animal discutem há décadas.
Em 1971, a principal entidade britânica de registro de gatos de raça parou de aceitar a linhagem. Entender o que causa o formato das orelhas, e o que mais essa mutação pode alterar no corpo do animal, ajuda a decidir com informação antes de levar um filhote para casa.
Por que a entidade britânica não reconhece o gato scottish fold
Em 1971, o Governing Council of the Cat Fancy (GCCF) deixou de registrar o scottish fold. Vale uma precisão: isso não foi uma proibição geral de ter esses gatos no Reino Unido, como muita gente afirma. Foi uma decisão da principal organização britânica responsável pelo registro de gatos de raça.
Hoje, o GCCF mantém a recusa e recomenda expressamente que o público não adquira exemplares da raça por causa dos problemas de saúde associados. O argumento da entidade é direto: o gene responsável pelas orelhas dobradas também causa anomalias no esqueleto, e mesmo animais com uma única cópia da variante podem desenvolver rigidez anormal.
De onde vêm as orelhas dobradas
A história começa na Escócia, em 1961, com uma gata chamada Susie, encontrada com orelhas dobradas incomuns. O que parecia só uma curiosidade estética se revelou ligado a uma alteração no desenvolvimento da cartilagem.
Hoje se sabe que o visual do scottish fold está associado a uma variante do gene TRPV4, relacionada a uma doença chamada osteocondrodisplasia do scottish fold. O mesmo mecanismo que impede a cartilagem da orelha de ficar na posição normal pode atingir outras partes do esqueleto, principalmente articulações e ossos das patas e da cauda.
Um estudo publicado no Australian Veterinary Journal descreveu alterações na maturação e no funcionamento da cartilagem desses gatos. Os pesquisadores observaram diferentes graus de osteocondrodisplasia e concluíram que evitar a reprodução de animais de orelhas dobradas seria a melhor forma de impedir a transmissão do problema.
A gravidade dos problemas ósseos varia de gato para gato
Nem todo scottish fold apresenta o mesmo quadro. A intensidade muda bastante entre os indivíduos, e isso explica por que algumas pessoas relatam gatos aparentemente saudáveis.
Uma cópia ou duas cópias da variante
Gatos que herdam duas cópias da variante genética costumam ter alterações muito mais graves. Por isso, durante anos, alguns criadores cruzaram exemplares de orelhas dobradas com gatos de orelhas retas.
Esse cruzamento, no entanto, não elimina o risco. Um estudo com scottish folds heterozigotos, ou seja, com uma só cópia da variante, encontrou osteocondrodisplasia em gatos de orelhas dobradas. A intensidade das lesões variava, e alguns animais com alterações leves podiam nem apresentar sintomas clínicos evidentes.
Um debate científico ainda aberto
Uma pesquisa radiográfica posterior apontou que as anomalias de alguns heterozigotos podem ser bem mais leves do que se descrevia antes. Isso mostra que ainda há discussão sobre a intensidade e a evolução da doença. Os autores, contudo, confirmaram a ligação entre as orelhas dobradas e a variante do TRPV4 que afeta a cartilagem.
Sinais de que a osteocondrodisplasia está avançando
Quando a doença progride, o gato pode apresentar um ou mais destes sinais:
- rigidez ao andar ou ao se levantar;
- claudicação (cojera);
- dificuldade para se movimentar;
- deformidades nos membros;
- cauda grossa ou pouco flexível;
- doença articular degenerativa.
Nos casos graves, a dor limita comportamentos normais do gato, como correr e saltar. O problema é que felinos costumam esconder o desconforto, e muitos tutores confundem os sinais com simples mudança de temperamento. Se o seu gato anda mais quieto, evita pular ou parece rígido, vale uma consulta com o veterinário. A dificuldade de identificar dor em gatos é um tema à parte e merece atenção.
A discussão chegou às leis de outros países
O caso levanta uma pergunta que vai além da raça: é aceitável selecionar de propósito uma característica estética quando ela está ligada a problemas de saúde? Alguns países já responderam por lei.
Desde 1º de janeiro de 2026, os Países Baixos proíbem ter novos gatos com orelhas dobradas. Há regras de transição para os animais que já viviam com tutores antes dessa data.
Na Espanha, a Lei 7/2023, de proteção dos direitos e do bem-estar dos animais, proíbe expressamente práticas de seleção genética que causem problemas ou alterações graves na saúde do animal. A norma também determina que a criação de animais de companhia seja feita por criadores registrados.
O que considerar antes de escolher um scottish fold
A dobra que tornou a raça famosa não é um detalhe externo. Ela é a manifestação visível de uma mutação que pode afetar a cartilagem e o esqueleto do gato ao longo de toda a vida. Por isso, escolher o animal só pelo formato das orelhas é o caminho mais arriscado.
Para quem já pensa em adotar ou já tem um scottish fold em casa, algumas atitudes ajudam:
- conversar com um veterinário antes da adoção e pedir uma avaliação da mobilidade do filhote;
- fazer check-ups regulares, com atenção às articulações e à cauda;
- observar mudanças na forma de andar, pular e brincar;
- considerar gatos sem raça definida ou de orelhas retas, que não carregam esse risco genético específico.
Quem convive com um scottish fold não deve se culpar. O foco é acompanhar de perto a saúde do animal e agir cedo ao primeiro sinal de desconforto, para preservar a qualidade de vida dele.
Fonte: ExpertoAnimal
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