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Hatchi

Oi eu sou o Hatchi, ao contrário de muitos amiguinhos, eu tive a sorte de nascer e crescer ao lado de humanos que sempre me amaram, desde que eu estava na barriguinha da minha mamãe pet. A mamãe me ganhou de presente, segundo ela, o presente mais perfeito e mais amado que ela já recebeu. Quando cheguei, no primeiro dia a mamãe teve que me colocar para dormir junto com ela, porque eu chorava muito com saudade da minha mamãe pet, mas em pouquinho tempo eu não chorava mais e só dormia com minha barrigona para cima. A mamãe tinha muito medo de rolar em cima de mim a noite então ela dormia igual a uma estátua, então para ajuda-la, comecei a dormir em cima do travesseiro dela, ela até teve que colocar um travesseiro só pra mim. Conforme os dias foram passando a mamãe achava que era uma menininha, me enfeitava com roupas, tênis, gravata, boné, um monte de coisa, eu não gostava muito, mas usava para agradar minha mamãe. Eu comecei a comer todos os chinelos que eu achava pela casa, até minhas próprias roupas, a mamãe ficou muito brava, mas ela tinha dó de brigar comigo, pois eu sempre fazia aquela carinha, com meus olhinhos de jabuticaba e ela se derretia toda. A mamãe sempre me tratou como um filho, mudou a rotina dela pra passar o máximo de tempo comigo, ela só não me levava pra trabalhar, mas eu tenho certeza que se deixassem, ela me levava também. Eu sempre andei sem coleira, porque era muito obediente, dava dois passos e olhava pra ver se minha mamãe estava vindo, esperava ela para atravessar a rua, não corria atrás de outros cachorros, algumas pessoas diziam que eu parecia gente. Um dia, eu comecei a me contorcer e minha mãe me levou correndo no médico. A tia veterinária falou pra mamãe que eu tinha problema nas duas patelas e que era por isso que eu estava me contorcendo de dor, tomei uns remédios ruins que a mamãe me obrigava tomar. A mamãe colocou almofadas pela casa inteira, pra eu não forçar muito meus joelhinhos ao subir e descer dos sofás e das camas, eu corria todo tortinho, a mamãe achava lindo e me beijava até eu pedir pra ela parar querendo descer do colo dela. Todo domingo eu acordava a mamãe na mesma hora pra gente poder ir almoçar na casa da tia, era sagrado, eu ficava todo animado, nem deixar a mamãe tomar banho eu deixava de tão ansioso que eu ficava, lá na casa da tia eu podia fazer tudo que todo mundo me mimava, a tia fazia ração com bastante carninha, bem picadinha, do jeito que eu gosto, eu saia da casa da tia uma bolinha, eu que sempre pesei 2 kg, saia pesando 3.
Há alguns meses atrás, eu tive uma convulsão a noite, a mamãe ficou tão desesperada, me levou no médico, eu fiquei com sequelas, não conseguia andar direito, caia muito fácil. Fiz alguns exames e o tio veterinário disse que eu precisava de um neurologista. A mamãe me levou na tia neurologista e comecei a ser tratado com uma medicação muito forte, que me deixava muito grogue, a mamãe fazia de tudo, dava o remédio de manhã pra mim, ia trabalhar e voltava correndo para poder dar o remédio de novo. Ela ficava muito preocupada em me deixar sozinho, então a vovó veio ajudar a cuidar de mim, a vovó sempre me mimou também, ela dava arroz com linguiça pra mim, escondido da minha mãe, se não a mamãe brigaria com ela. Toda a semana eu tinha que ir na tia veterinária colher exames, a tia era muito legal, mas eu sabia que toda vez que eu ia lá, ela tirava um pouquinho do meu sangue. Eu fui me acostumando com o remédio, fiquei com sequelas, tinha dificuldade em respirar, não conseguia fechar minha boca direito, só conseguia comer a ração molhadinha, estava rouco, perdi a firmeza nas minhas patinhas. A mamãe todos os dias conversava comigo para eu ser forte, porque ela não ia me abandonar e que iamos superar juntos aquela fase ruim. A mamãe passou a dormir no chão junto comigo, porque ela tinha medo que eu caísse da cama a noite, tinha gente que achava um absurdo, mas minha mãe não ligava, pois eu era mais importante que tudo. Depois de alguns dias, eu piorei e tive várias convulsões, mesmo estando medicado, eu fui para o médico e tive que tomar medicação na veia. Minha mãe ficou comigo no colo o tempo todo, ela não queria me deixar lá sozinho de forma alguma. Eu estava bem fraco, a tia veterinária queria que eu ficasse internado, mas a mamãe não quis deixar, falou que ia ficar lá comigo. No finalzinho da tarde, a mamãe foi me colocar para fazer xixi e eu desmaiei no colo dela, ela saiu comigo desesperada gritando e pedindo ajuda no hospital, eu tive uma parada respiratória, minha mãe chorava muito, desesperada. Foram até ela para avisar que eu estava vivo, mas entubado e que eu teria que permanecer internado. A mamãe teve que ir embora, mas falou pra mim que o coração dela havia ficado comigo. Eu sei que ela chorou muito. A vovó ficou desesperada, porque a mamãe chorava muito e ela estava longe. No outro dia cedinho minha mãe foi me ver, eu estava estável, mas ainda entubado. A visita era controlada, a mamãe ficou comigo o quanto a tia deixou. A mamãe tinha muita esperança, a tia até falou pra ela que a possibilidade de eu voltar do coma era grande, mas eu teria ainda mais sequelas, a mamãe queria que eu sofresse, perguntou pra tia se a eutanásia seria o melhor caminho para que meu sofrimento cessasse, a tia falou que era pára esperar, porque ela ainda tinha esperanças. A mamãe foi embora triste, mas a tia tinha dado esperança a ela. No final da tarde, a tia enviou uma mensagem pra mamãe, que ela tinha conseguido me desentubar, mas eu estava tendo muitas convulsões e havia tido uma outra parada respiratória, mas que estava apresentando algumas melhoras e que ter conseguido me desentubar era uma vitória. A mamãe não se aguentou de tanta felicidade, mal esperava que o dia amanhecesse para que pudesse ir me ver. Quando era bem a noitinha, a tia pediu para que a mamãe ligasse para ela, infelizmente eu não resisti, tive outra parada respiratória, entrou água nos meus pulmões. Eu virei uma estrelinha e o anjinho da guarda da minha mãe. Mamãe até hoje está muito triste, chora toda vez que vai falar de mim, mas eu tô aqui cuidando dela e a gente sabe que um dia Papai do Céu vai nos unir novamente.

Foto de Rodrigo Amar
Postado por
Rodrigo Amar
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