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Cachorro cheirando tudo no passeio: o que isso significa?

 

 

Você está no meio do passeio, com um olho no relógio, e o cachorro cheirando tudo: poste, canto de muro, tufo de grama, a mesma esquina pela terceira vez. Para quem segura a guia, parece tempo perdido. Para ele, é a parte mais importante da saída.

Segundo a etóloga Isabel Jiménez, em um de seus vídeos no YouTube, muitos problemas de convivência nascem de um erro de base: achar que tutor e cachorro vivem no mesmo mundo. Entender como ele percebe o ambiente muda a forma de passear e a forma de se relacionar com ele.

Por que o cachorro cheira tudo durante o passeio?

“O mundo que o seu cachorro percebe e o mundo que você percebe são dois mundos distintos”, explica Jiménez. Vocês podem estar na mesma sala, no mesmo horário, olhando para o mesmo ponto, e ainda assim não estar no mesmo lugar.

A explicação vem de longe. A etóloga atribui a ideia ao biólogo alemão Jakob von Uexküll, que em 1934 propôs que cada espécie habita uma bolha perceptiva própria, feita sob medida para o que seus sentidos captam e para o que ela precisa para sobreviver. Ele chamou esse conceito de Umwelt, algo como “mundo próprio”.

Isso derruba a ideia de que existe um único mundo objetivo do qual cada espécie enxerga só um pedaço. Nas palavras de Jiménez, “existem tantos mundos quanto formas de perceber”. Seu cachorro não vive no seu mundo com visão pior e olfato melhor: ele vive no dele, que é completo, coerente e suficiente. E nesse mundo, um sentido manda sobre todos os outros: o olfato.

O olfato do cachorro: muito mais do que sentir cheiros

Mais receptores e mais cérebro dedicado à tarefa

Um ser humano tem em torno de 5 a 6 milhões de receptores olfativos. Um cachorro, dependendo da raça, tem entre 200 e 300 milhões. Mesmo assim, Jiménez avisa que o número é o que menos importa. O decisivo é que a parte do cérebro dedicada a processar odores é proporcionalmente muito maior que a nossa. O cão não apenas cheira mais: ele, nas palavras da etóloga, “pensa cheirando”.

O órgão vomeronasal

Há ainda o órgão vomeronasal, um segundo sistema olfativo especializado em moléculas que transmitem informações entre indivíduos, como estado hormonal, estresse e identidade. “Seu cachorro pode sentir o cheiro de como outro cachorro está. Não deduz, cheira”, reforça a especialista. Por isso aquele xixi num poste vale mais do que parece: é um recado completo.

O cheiro também conta o tempo

A terceira dimensão é o tempo. Para Jiménez, “para o seu cachorro, o olfato também é uma forma de perceber o tempo”. Um rastro se degrada com as horas, e essa degradação indica se alguém passou por ali há dez minutos ou há seis horas.

Quando ele para numa esquina, portanto, “não está perdendo tempo, está lendo quem passou por ali, em que estado estava e há quanto tempo”. Em outras palavras, está lendo o jornal dos cachorros, com edição atualizada a cada dia.

Os outros sentidos também moldam o mundo do cachorro

O olfato não é o único que separa o mundo dele do nosso. Na audição, nós chegamos a cerca de 20.000 hertz. Os cães vão bem mais longe e captam ultrassons imperceptíveis para nós, como os emitidos por eletrodomésticos e instalações que ninguém percebe funcionando.

Na visão, existe um mito comum: o de que cachorros enxergam só em preto e branco. Eles veem cores, mas em uma gama menor que a nossa. Distinguem bem azuis e amarelos e têm dificuldade com vermelhos e verdes. Em troca, enxergam melhor com pouca luz e detectam movimento muito antes. “Não é uma visão pior, é uma visão para outra coisa”, resume Jiménez.

O detalhe que a etóloga considera mais interessante está nos bigodes. Eles são, na verdade, vibrissas: órgãos sensoriais com inervação profunda, irrigação sanguínea própria e uma área do cérebro dedicada a processar o que captam. Servem para compensar uma limitação da espécie, já que o cão enxerga mal de perto. As vibrissas percebem correntes de ar, mudanças de pressão, a proximidade de objetos e até texturas. É por isso que um cachorro anda por uma casa às escuras sem esbarrar em nada: “não está vendo, está lendo o ar”.

Por que puxar a guia atrapalha o passeio

Depois de entender como o cão percebe o mundo, a parada repentina na calçada ganha outro sentido. O que parece perda de tempo é a atividade principal da saída: reunir informações sobre o bairro, seus moradores e o que aconteceu desde a última volta.

Puxar a guia nessa hora equivale a tirar o jornal das mãos de alguém no meio da página. Profissionais de comportamento costumam apontar que essa interrupção gera frustração e estresse, e o passeio deixa de cumprir seu papel de descarregar energia e curiosidade.

O conselho de Jiménez é simples: “Da próxima vez que seu cachorro parar de repente para cheirar algo que você não vê, não puxe a guia. Ele está trabalhando, está lendo o mundo”. E ela completa: “Esse mundo, mesmo que você não possa vê-lo, é tão real quanto o seu”.

Como tornar o passeio mais proveitoso para o cachorro

O passeio é, antes de tudo, o momento do cachorro. Deixar a pressa de lado e dar tempo para ele parar e cheirar é a forma mais simples de ele aproveitar a saída. Algumas atitudes ajudam:

  • Reserve um trecho do passeio só para cheirar, sem metas de distância ou de tempo.
  • Use uma guia que dê um pouco de liberdade, em locais seguros, para ele explorar sem sentir tensão.
  • Deixe que ele escolha parte do caminho e varie os trajetos, porque cheiros novos são novidade.
  • Espere ele terminar a investigação antes de seguir, em vez de chamar no meio da leitura.
  • Se você tem horário apertado, saia alguns minutos antes em vez de apressar o cão durante o percurso.

Quando o cachorro cheirando tudo merece atenção

Cheirar é um comportamento normal e saudável. O que pede cuidado é o que vem junto: comer o que encontra no chão, lamber superfícies ou mexer em lixo e fezes. Nesses casos, vale ensinar comandos como “larga” e “vem” com reforço positivo, para interromper a ação sem brigar e sem puxar com força.

Também merece observação a mudança de padrão. Um cachorro que de repente passa a farejar sem parar, sem conseguir relaxar, ou que deixa de cheirar e demonstra medo na rua pode estar sinalizando ansiedade, desconforto ou algum problema de saúde. Se isso acontecer, converse com o veterinário ou com um educador canino para avaliar o caso.

Fonte: ExpertoAnimal

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Redação PDD
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