Cachorro pode receber pensão alimentícia no divórcio? Entenda aqui!

As famílias brasileiras mudaram significativamente nas últimas décadas, e os animais de estimação tornaram-se membros integrantes de milhões de lares. Segundo dados do Instituto Pet Brasil, o país possui mais de 149 milhões de pets, sendo que muitos casais consideram seus cães e gatos como verdadeiros filhos. Mas o que acontece quando esses tutores se separam? A questão da pensão alimentícia para animais ganhou destaque recentemente após uma decisão do Tribunal de Justiça de São Paulo.

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Família feliz com cão. Imagem: Freepik

O debate sobre direitos dos animais em processos de divórcio não é novo, mas tem ganhado força à medida que a sociedade reconhece o papel emocional e social dos pets nas famílias modernas. A discussão envolve aspectos jurídicos, e também questões de bem-estar animal e responsabilidade compartilhada entre os tutores.

O que é pensão alimentícia para animais?

A pensão alimentícia para animais seria um mecanismo legal que obrigaria um dos ex-cônjuges a contribuir financeiramente para as despesas do pet que permaneceu sob a guarda do outro. Esse conceito surgiu da crescente percepção dos animais como membros da família, não apenas como bens ou propriedades.

Na prática, essa pensão cobriria gastos essenciais como alimentação, cuidados veterinários, medicamentos, vacinas e outros custos relacionados ao bem-estar do animal. Os valores seriam calculados com base nas necessidades específicas do pet e na capacidade financeira dos envolvidos, similar ao que ocorre com a pensão alimentícia para filhos menores.

O fundamento dessa proposta reside no reconhecimento de que os animais desenvolvem vínculos emocionais profundos com seus tutores e que seu bem-estar pode ser comprometido quando há mudanças drásticas em sua situação financeira e muitos casais adotam pets durante a união estável ou casamento, assumindo responsabilidades compartilhadas que, idealmente, deveriam continuar mesmo após a separação.

O caso que movimentou o debate no Brasil

Em julho de 2024, a 4ª Câmara de Direito Privado do Tribunal de Justiça de São Paulo tomou uma decisão que reacendeu o debate sobre pensão alimentícia para animais. O caso envolveu uma ex-companheira que solicitou que seu ex-marido continuasse contribuindo financeiramente para as despesas do cachorro do casal, argumentando que não conseguiria arcar sozinha com todos os custos.

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Família com golden retriver. Imagem: Freepik

A desembargadora Fátima Cristina Ruppert Mazzo, relatora do caso, reconheceu que “os animais desempenham papel cada vez mais relevante nas interações humanas”, mas manteve o entendimento tradicional de que “o cão não é um sujeito de direito”. A decisão estabeleceu que os custos são “obrigações inerentes à condição de dono”, cabendo exclusivamente ao tutor que permaneceu com a guarda assumir todas as despesas.

Esta decisão gerou controvérsia no meio jurídico e entre defensores dos direitos dos animais, pois mostrando a lacuna existente na legislação brasileira. 

Leia também: Casal briga pela guarda de cachorro dois meses após o término

Por que a Justiça brasileira nega pensão para pets?

Marco legal atual

A legislação brasileira ainda classifica os animais como bens semoventes, ou seja, propriedades que podem se mover por si mesmas. Essa categorização jurídica, presente no Código Civil, impede que os animais sejam considerados sujeitos de direito, limitando as possibilidades de proteção legal em situações como divórcios ou separações.

Embora a Lei de Crimes Ambientais (Lei 9.605/98) e outras normativas tenham avançado na proteção animal, estabelecendo penalidades para maus-tratos, o direito civil brasileiro ainda não reconhece os pets como entidades com direitos próprios. Essa perspectiva jurídica tradicional cria obstáculos para decisões favoráveis à pensão alimentícia para animais.

Visão dos animais como propriedade

O entendimento jurisprudencial predominante trata os animais como objetos de propriedade, similar a outros bens do casal. Nessa lógica, quando ocorre a separação, o animal é “atribuído” a um dos cônjuges, que assume integralmente a responsabilidade por sua manutenção, assim como aconteceria com um veículo ou móvel.

Esta visão ignora aspectos fundamentais da relação entre humanos e animais, como os vínculos emocionais, a capacidade de sofrimento dos pets e o fato de que muitas vezes ambos os cônjuges desenvolveram laços afetivos com o animal. A perspectiva proprietária também desconsidera pesquisas científicas que comprovam a senciência animal e a importância do bem-estar emocional dos pets.

Defensores dos direitos dos animais argumentam que essa abordagem é antiquada e não reflete a realidade das famílias multiespécie modernas. Eles defendem que os tribunais deveriam considerar o melhor interesse do animal, similar ao princípio aplicado em casos envolvendo crianças.

Outro caso envolvendo a justiça: Cachorro Scooby tem ação aceita na Justiça do CE por sofrer maus …

Como outros países tratam a questão?

Diversos países têm adotado abordagens mais progressivas em relação aos direitos dos animais em processos de separação. Nos Estados Unidos, estados como Califórnia, Alaska e Illinois já permitem que juízes considerem o bem-estar dos pets ao determinar a guarda, indo além da simples divisão de propriedade.

Na França, uma reforma de 2015 no Código Civil reconheceu os animais como “seres vivos dotados de sensibilidade”, criando uma categoria jurídica intermediária entre pessoas e objetos. Embora ainda não tenham direitos equivalentes aos humanos, essa mudança abriu precedentes para discussões sobre pensão alimentícia e guarda compartilhada de animais.

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Cão com olhar tristonho. Imagem: freepik

O Reino Unido tem casos documentados onde tribunais determinaram pensão alimentícia para animais, especialmente em divórcios envolvendo casais de alta renda. Nesses casos, os juízes consideraram fatores como o padrão de vida do animal durante o casamento e a capacidade financeira dos ex-cônjuges. Essas decisões internacionais demonstram uma tendência global de reconhecimento dos animais como mais do que simples propriedade.

Alternativas legais para tutores em separação

Acordo extrajudicial

Mesmo diante das limitações legais brasileiras, casais em processo de separação podem estabelecer acordos extrajudiciais sobre a manutenção de seus pets. Esses acordos, quando formalizados adequadamente, podem incluir cláusulas sobre divisão de despesas veterinárias, alimentação e outros cuidados necessários.

Um acordo bem estruturado deve especificar valores, periodicidade dos pagamentos, responsabilidades de cada parte e procedimentos para situações emergenciais. Embora não tenham a mesma força executiva de uma pensão alimentícia tradicional, esses contratos podem ser juridicamente válidos e oferecer segurança para ambas as partes.

Guarda compartilhada de animais

Outra alternativa crescente é a guarda compartilhada de pets, onde o animal alterna períodos com cada ex-cônjuge. Esse arranjo permite que ambos mantenham vínculos com o animal e dividam naturalmente as despesas conforme o tempo de convivência.

Para que funcione adequadamente, a guarda compartilhada requer planejamento detalhado, incluindo cronogramas de alternância, divisão de responsabilidades veterinárias e acordos sobre decisões importantes relacionadas à saúde do animal. É fundamental considerar o bem-estar do pet, evitando mudanças muito frequentes que possam causar estresse.

Embora o ordenamento jurídico brasileiro ainda não reconheça formalmente a pensão alimentícia para animais, a crescente conscientização sobre os direitos dos pets e sua importância nas famílias modernas sugere que mudanças legislativas podem estar no horizonte. Enquanto isso, tutores podem buscar soluções criativas e acordos mútuos para garantir o bem-estar de seus companheiros de quatro patas, mesmo em momentos difíceis como uma separação.

Leia esse artigo: Como evitar que o cachorro desenvolva ansiedade de separação

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